Dia Mundial do Livro: leituras que atravessam fases e permanecem

Dia Mundial do Livro: leituras que atravessam fases e permanecem

O Dia Mundial do Livro, celebrado em 23 de abril, vai além de uma data comemorativa no calendário cultural. É um marco que convida à reflexão sobre o papel da leitura na construção de identidade, memória e repertório emocional ao longo da vida.

Mais do que um hábito, ler é um processo contínuo de encontro com histórias, personagens e, muitas vezes, com versões de nós mesmos que mudam com o tempo. A leitura também tem um poder silencioso e transformador: ela nos desloca. Leva para lugares onde talvez nunca chegaríamos fisicamente, apresenta realidades que não fazem parte do nosso cotidiano e amplia a forma como enxergamos o mundo. Em um cenário marcado por bolhas sociais e informacionais, ler é uma forma de atravessá-las, acessar outras perspectivas e construir um olhar mais amplo, mais crítico e mais humano.

Ao longo dos anos, alguns livros deixam de ser apenas leituras e passam a ocupar lugares específicos na nossa trajetória. Como leitora, revisitar essas obras é quase revisitar quem eu fui. Entre tantas páginas já vividas, três títulos se destacam por marcarem fases importantes da minha vida.

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Na adolescência, As Vantagens de Ser Invisível, de Stephen Chbosky, foi mais do que uma leitura, foi identificação imediata. A sensibilidade do protagonista, os conflitos silenciosos, a trilha sonora presente nas páginas e a intensidade das descobertas criam um retrato honesto sobre crescer e tentar se encaixar. É o tipo de livro que encontra o leitor no momento exato, quando tudo ainda está sendo entendido pela primeira vez.

Já nos primeiros anos da vida adulta, o impacto veio de forma diferente, mais profundo e, de certo modo, mais inquietante. A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, meu livro preferido da vida, vai além de uma narrativa sobre Macabéa. É uma obra que tensiona a própria ideia de existência, linguagem e invisibilidade. A aparente simplicidade da personagem contrasta com a complexidade do olhar que a constrói, revelando camadas sobre marginalização, indiferença e o direito de existir. Não é uma leitura confortável, nem linear, é um livro que exige presença e, ao mesmo tempo, desloca o leitor, provocando um incômodo que permanece muito depois da última página.

Atualmente, a leitura que mais me atravessou foi A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli. A obra mistura realismo e elementos quase mágicos, mas sua profundidade está na forma como trata o invisível, aquilo que não é dito, em como atravessa relações, silêncios e destinos. A jornada do protagonista revela camadas sobre pertencimento, fé, escuta, luto e solidão, ao mesmo tempo em que constrói uma crítica sutil às ausências e desigualdades que moldam tantas histórias. É uma narrativa sensível, mas longe de ser simples, que acolhe enquanto provoca e convida o leitor a enxergar além do óbvio, percebendo as nuances do que significa, de fato, ser ouvido e existir no mundo.

Esses três livros não apenas contam histórias, eles marcam momentos. E mostram, de forma clara, como a leitura acompanha transformações pessoais, adaptando significados conforme o tempo passa.

No Dia do Livro, a recomendação não é apenas ler mais, mas ler com atenção ao que cada obra desperta. Porque, no fim, alguns livros não ficam na estante, ficam na gente.

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