As Quintas Lemos: Os Crimes ABC, de Agatha Christie

Na edição dessa semana do As Quintas Lemos, falamos de uma autora que marcou o início da minha história como leitora. Agatha Christie foi uma das primeiras escritoras que me fizeram entender o prazer de um bom suspense, de desconfiar de cada detalhe e de virar páginas com entusiasmo. Sua grandiosidade vai além da genialidade dos enredos: estamos falando de uma das autoras mais publicadas da história, com dezenas de romances policiais que atravessaram gerações e seguem absolutamente atuais.
Entre seus muitos títulos, Os Crimes ABC ocupa um lugar especial. Publicado originalmente em 1936, o romance apresenta uma estrutura ousada para a época e reforça por que Christie se tornou um dos maiores nomes da literatura policial mundial.
Sobre este livro

Em Os Crimes ABC, acompanhamos mais uma investigação de Hercule Poirot, o meticuloso detetive belga que transforma lógica em arte. A trama se inicia quando Poirot passa a receber cartas anônimas anunciando crimes que seguirão uma ordem alfabética. A primeira vítima é encontrada em Andover. Depois, Bexhill. Em seguida, Churston. Em cada cena, um guia ferroviário ABC é deixado como assinatura.
A ideia é simples, quase fria. Um assassino em série que mata seguindo o alfabeto. Mas nas mãos de Agatha Christie, nada é apenas simples, sua genialidade sempre está por trás da aparente simplicidade. O que parece uma sequência lógica começa a revelar camadas mais profundas, questionando a própria noção de padrão e intenção.
Um dos pontos mais interessantes de Os Crimes ABC é a maneira como a autora manipula a percepção do leitor. A ordem alfabética funciona como distração. Enquanto tentamos antecipar a próxima letra, Christie trabalha silenciosamente nas entrelinhas, conduzindo a narrativa para um desfecho que redefine tudo o que acreditávamos entender.
A construção do suspense aqui não depende apenas do crime em si, mas do clima coletivo de medo. A imprensa, a opinião pública, o pânico diante da ideia de um assassino metódico e imprevisível. Para um livro da década de 1930, a abordagem de um serial killer com essa estrutura foi ousada e extremamente moderna.
Poirot, por sua vez, mantém sua postura serena. Ele observa mais do que fala, analisa mais do que acusa. E é justamente nessa paciência quase irritante que mora a solução. A investigação não é sobre letras, mas sobre pessoas. Sobre vaidades, fragilidades e motivações muito mais humanas do que o espetáculo midiático sugere.
Por fim vemos o quanto Os Crimes ABC continua atual. Falar de Agatha Christie hoje é falar de permanência. Seus livros continuam sendo vendidos, adaptados e discutidos porque sua escrita equilibra acessibilidade e inteligência narrativa. Os Crimes ABC é um exemplo claro disso. A leitura flui com leveza, mas nunca é rasa. Cada capítulo deixa uma pequena inquietação, um detalhe que parece insignificante até deixar de ser.
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Para quem busca um clássico da literatura policial, um suspense psicológico bem construído ou simplesmente um livro que prenda do começo ao fim, Os Crimes ABC é uma escolha certeira. É também uma excelente porta de entrada para quem deseja conhecer a obra de Agatha Christie e entender por que ela é considerada a Rainha do Crime.
No fim, mais do que descobrir quem é o assassino, a experiência está em perceber como fomos conduzidos até ele. E talvez seja exatamente isso que me fez, lá atrás, me apaixonar pela leitura.
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