As Quintas Lemos: Relatos de um Gato Viajante, de Hiro Arikawa

As Quintas Lemos: Relatos de um Gato Viajante, de Hiro Arikawa

Na edição desta semana do As Quintas Lemos, viajamos pelas paisagens do Japão guiados por olhos atentos, bigodes orgulhosos e um rabo em forma de número sete. Publicado originalmente no Japão, Relatos de um Gato Viajante, de Hiro Arikawa, é um romance delicado que transforma uma jornada simples em uma profunda reflexão sobre amor, amizade e despedidas.

O que torna a narrativa especialmente envolvente é a escolha de dar voz ao próprio Nana. Com comentários ora sarcásticos, ora ingênuos, sempre carregados de ternura, o gato observa os humanos com um misto de estranhamento e lealdade. Sua perspectiva revela pequenas ironias do cotidiano, mas também evidencia o quanto os vínculos afetivos podem ser profundos, mesmo quando não são verbalizados.

Sobre este livro

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Foto: Reprodução

A história acompanha Nana, um gato de rua espirituoso e observador, que é resgatado por Satoru Miyawaki, um homem gentil e silenciosamente afetuoso. O nome do felino nasce do formato curioso de seu rabo, semelhante ao número sete, e logo entendemos que não se trata apenas de um detalhe físico, mas de um símbolo de identidade e singularidade.Quando os dois partem em viagem por diferentes regiões do Japão, a bordo de uma van prateada, o leitor é convidado a descobrir, aos poucos, o verdadeiro motivo daquela jornada.

Intercalando a narração felina, a autora apresenta capítulos em terceira pessoa que resgatam o passado de Satoru e revisitam amizades antigas. A cada parada da viagem, reencontros trazem à tona memórias, sonhos interrompidos e escolhas que moldaram destinos. Essa alternância de vozes amplia o alcance emocional do romance e constrói, com delicadeza, o retrato de uma vida marcada por perdas e gratidão.

A escrita de Hiro Arikawa é simples e fluida, mas jamais superficial. Há leveza nos diálogos e nas observações de Nana, mas também há densidade nas entrelinhas. Conforme o motivo da viagem se revela, o leitor percebe que está diante de uma história sobre cuidado e responsabilidade afetiva. O percurso em busca de um novo lar para o gato se transforma em metáfora para os ciclos da vida e para a coragem necessária diante das despedidas inevitáveis.

Entre paisagens, conversas e silêncios, o romance aborda temas universais. O companheirismo entre Nana e Satoru expressa um amor incondicional que dispensa explicações. A perda e a aceitação aparecem como partes naturais da existência. E, acima de tudo, a narrativa nos convida a refletir sobre o valor das memórias compartilhadas e sobre a importância de viver o presente com sinceridade.

Relatos de um Gato Viajante é uma leitura que emociona sem recorrer ao exagero. É um livro que arranca sorrisos discretos, aperta o coração no momento certo e permanece na memória mesmo após a última página. Mais do que uma história sobre um gato em viagem, é um romance sobre os laços que nos sustentam e sobre a beleza, delicada e frágil, de amar e deixar ir.

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