Atenção: o texto a seguir contém spoilers do episódio final de Stranger Things. Se você ainda não assistiu, leia por sua conta e risco.
O episódio final de Stranger Things encerra uma das séries mais influentes do streaming, reunindo emoção, nostalgia e decisões narrativas que dividem o público após quase uma década de história. Desde 2016, quando Hawkins apresentou o desaparecimento de Will e o surgimento de Eleven, a produção cresceu de forma exponencial, transformando-se em um fenômeno cultural global. Agora, ao chegar ao fim, a série da Netflix se despede de forma ambiciosa, intensa e, acima de tudo, fiel à sua essência: a amizade.

Ao mesmo tempo em que assume o peso do encerramento, o último episódio também carrega as marcas de tudo o que Stranger Things se tornou ao longo dos anos. Há espetáculo, emoção e entrega técnica, mas também excessos, escolhas questionáveis e um cansaço narrativo perceptível. Ainda assim, o saldo é mais positivo do que frustrante.
O episódio final de Stranger Things prioriza emoção em vez de perfeição
Diferente de outros finais recentes da televisão, o episódio final de Stranger Things não tenta restaurar um status quo confortável. Desde os primeiros minutos, a narrativa deixa claro que não há espaço para falsas esperanças. A ida definitiva ao Mundo Invertido e ao Abismo carrega um tom quase trágico, no qual Eleven, Hopper, Murray e Kali avançam conscientes de que a vitória exigirá perdas irreversíveis.

A estrutura do episódio funciona melhor do que em grande parte da quinta temporada. Dividido entre o confronto metafísico na mente de Vecna e o esforço físico coletivo do grupo em Hawkins, o roteiro finalmente encontra convergência. Não há tempo para subtramas supérfluas, e essa objetividade dá ao episódio um ritmo mais firme, mesmo com sua longa duração.

A ação se desenrola em múltiplas frentes, com bom senso de escala e tensão crescente. A colisão entre os mundos, o uso explícito da lógica de Dungeons & Dragons e a ameaça constante de morte especialmente envolvendo Steve reforçam a identidade da série, que nunca deixou de tratar o horror como uma extensão do amadurecimento de seus personagens.
Personagens e despedidas no episódio final de Stranger Things
Apesar da grandiosidade visual, Stranger Things acerta ao não relegar os momentos emocionais apenas ao epílogo. A conversa inicial entre Will e Mike, por exemplo, resgata temas fundamentais da série, como identidade, pertencimento e aceitação. O diálogo funciona não pelo impacto dramático, mas pela honestidade silenciosa, reafirmando que a amizade sempre foi o coração da narrativa.

Ao longo do episódio, diferentes arcos encontram encerramentos coerentes. Hopper e Eleven reafirmam sua relação quase paterna, Steve e Jonathan dividem momentos de cumplicidade, e Joyce retoma um papel central na resolução do conflito. Embora alguns destinos sejam previsíveis, eles respeitam a trajetória construída ao longo das temporadas.
O momento mais simbólico da batalha final acontece justamente quando Joyce Byers desfere o golpe decisivo contra Vecna. A escolha carrega um peso emocional poderoso, pois coloca frente a frente a mãe que iniciou essa jornada e o mal que perseguiu sua família por anos. É uma resolução simples, mas carregada de significado.

Jamie Campbell Bower eleva Vecna a um vilão de cinema
Um dos grandes destaques do episódio final de Stranger Things é a atuação de Jamie Campbell Bower, que consolida Vecna como um dos vilões mais complexos da televisão recente. O ator foge do caminho fácil da caricatura e constrói Henry Creel a partir da dor, do silêncio e da fragmentação emocional.

No último episódio, sua performance atinge um nível claramente cinematográfico, especialmente nas sequências em que Henry acessa a caverna mental onde as lembranças mais doem. Nessas cenas, o horror não nasce do sobrenatural, mas do trauma. O olhar vazio, a respiração contida e a rigidez corporal transformam Vecna em algo mais humano e, por isso mesmo, mais perturbador.
Bower demonstra um controle dramático raro, alternando vulnerabilidade e fúria sem perder consistência. Essa capacidade de transitar entre o humano e o monstruoso confirma o ator como um dos grandes nomes de sua geração, elevando Stranger Things também como vitrine de atuações maduras e ousadas.
O sacrifício de Eleven e as escolhas que dividem o público
No clímax do episódio final de Stranger Things, Eleven encara novamente seu destino como arma e solução para todos os problemas. A decisão de permanecer no Mundo Invertido para destruir Vecna e o Abismo reconhece, de forma amarga, como a personagem sempre foi instrumentalizada ao longo da série.

Embora o roteiro flerte com a coragem de um sacrifício definitivo, a escolha por um desfecho ambíguo enfraquece o impacto emocional. A possibilidade de sobrevivência de Eleven, sugerida mas não confirmada, soa mais como uma concessão do que como uma consequência natural de sua trajetória, além de abrir espaço para interpretações que parecem mais comerciais do que narrativas.
Ainda assim, o arco da personagem dialoga com quem ela sempre foi: uma heroína solitária, mesmo cercada de amigos, marcada pela dor, mas também pela empatia.
O legado do episódio final de Stranger Things para a cultura pop
O epílogo, ambientado em um salto temporal, aposta em despedidas diretas e destinos previsíveis, porém coerentes. Hawkins reconstruída, o fim da ocupação militar e os personagens seguindo caminhos distintos reforçam a ideia central de que crescer também significa se separar. O discurso de Dustin em homenagem a Eddie funciona pela simplicidade e emoção contida.

A última partida de Dungeons & Dragons é, talvez, o momento mais bonito do episódio. Quando Mike descreve o futuro não como certeza, mas como desejo, Stranger Things retorna ao seu ponto de origem: crianças em volta de uma mesa, imaginando mundos. A diferença é que agora todos cresceram inclusive o público.
O episódio final de Stranger Things não é perfeito. Ele carrega excessos, cansaço e decisões questionáveis. Ainda assim, entrega um encerramento honesto, emocional e respeitoso com tudo o que a série representou. Um adeus agridoce, marcado pela amizade, pela imaginação e pela difícil arte de amadurecer.
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