Hamnet no Oscar 2026: saí do cinema em silêncio (e mexido)

Hamnet no Oscar 2026: saí do cinema em silêncio (e mexido)

O drama de Chloé Zhao aposta na delicadeza e transforma o luto em imagem e, por isso, vira um dos candidatos mais fortes da temporada.

Eu vou ser bem honesto: fui assistir “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” meio que naquela obrigação boa da temporada de prêmios. Filme falado, indicado ao Oscar 2026, elogiado por todo mundo, dirigido pela Chloé Zhao… tudo indicava aquela sessão que você assiste apenas para “estar em dia”.
Só que, felizmente, não foi isso que aconteceu comigo.

Quando o filme acabou, eu saí do cinema em silêncio, com a sensação incômoda e poderosa de que alguém tinha mexido em um lugar que eu nem planejava abrir naquele dia. E o mais curioso é que Hamnet faz isso sem apelar para gritaria, sem sublinhar emoção com trilha o tempo inteiro e, principalmente, sem tentar arrancar lágrima à força.
Ele chega devagar. Aos poucos. E, quando você percebe, já entrou.

Hamnet: por que eu não consegui “só assistir”

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Paul Mescal entrega uma atuação poderosa como o dramaturgo William Shakespeare.
Crédito: Alamy Stock Photo

A história do filme parte de um fato real pouco documentado. Hamnet Shakespeare existiu, foi o único filho homem de William Shakespeare e morreu aos 11 anos, em 1596. A partir daí surge um gancho que dá arrepio: pouco tempo depois, Shakespeare escreve Hamlet.
Naquele período, inclusive, “Hamnet” e “Hamlet” eram grafias muito próximas, usadas quase de forma intercambiável.

Ainda assim, o filme não tenta empurrar uma “verdade definitiva”, do tipo: ele escreveu Hamlet por causa disso. Não há prova histórica fechada que confirme essa ligação direta. Mesmo assim, a hipótese é poderosa. E é justamente nesse espaço entre o fato comprovado e o silêncio dos registros que o longa se constrói.

Foi aí que eu entendi algo importante: Hamnet não quer explicar Shakespeare. O filme quer mostrar o que a perda faz com uma família. E isso… isso pega de um jeito diferente.

Jessie Buckley me ganhou na primeira cena

Eu já gostei da Jessie Buckley em outros trabalhos, mas aqui ela está em outro nível. Ela interpreta Agnes (o filme usa esse nome para Anne Hathaway) com um tipo de intensidade que não é “performance para prêmio” no sentido vazio é presença.

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Agnes interpretada por Jessie Buckley

Além disso, a forma como Chloé Zhao filma Agnes chama atenção. Ela não é apenas uma personagem dentro da narrativa; ela parece integrada ao ambiente. A natureza, a casa, o tempo e até o vento dialogam com ela. Por isso, quando a tragédia chega, não é apenas “uma cena triste”. É como se o mundo inteiro perdesse cor por alguns instantes.

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(Agnes) Jessie Buckley interpreta Anne Hathaway a esposa de Shakespeare.

Confesso que fiquei pensando, ali na cadeira: como um filme consegue tornar a dor tão concreta sem cair no exagero?

Paul Mescal faz um Shakespeare humano (e isso foi um acerto)

Paul Mescal interpreta Shakespeare aqui chamado apenas de Will de forma contida, quase travada emocionalmente. E isso funciona muito bem. O filme não busca o “gênio da literatura” discursando frases brilhantes. Ele busca o homem tentando existir, tentando dar conta da família e tentando entender o que fazer com o vazio que se instala.

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Shakespeare interpretado por Paul Mescal

A relação entre Will e Agnes nunca vira novela. Não há vilão, nem herói. O que existe são pessoas falhas, que se amam, mas que nem sempre sabem como permanecer juntas. Essa escolha deixa tudo mais próximo, mais real e, consequentemente, mais doloroso.

O que é real e o que é invenção em Hamnet

Para quem gosta de separar fato de ficção eu sou desses dá para organizar assim:

  • É real: Hamnet existiu, morreu criança e era filho de William Shakespeare e Anne Hathaway.
  • É real: Shakespeare escreveu Hamlet alguns anos depois.
  • É provável (mas não comprovado): que o luto tenha influenciado diretamente a obra.
  • É invenção dramática: diálogos íntimos, simbolismos espirituais e a construção de Agnes como figura quase mística.

E, sinceramente? Nada disso enfraquece o filme. Pelo contrário. Hamnet não promete um documento histórico. Ele promete uma verdade emocional. E cumpre exatamente isso.

O luto em Hamnet não “vira cena”: ele vira atmosfera

Há filmes que tratam o luto como evento: algo acontece, chora-se, segue-se adiante. Aqui, não. Em Hamnet, o luto vira presença constante. Ele está na casa, na comida, no ritmo dos passos e no jeito de olhar para um espaço onde alguém deveria estar.

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Jacobi Jupe, ator mirim de ‘Hamnet’

Gosto quando o cinema confia nesse tipo de silêncio. Afinal, nem toda dor cabe em frase bonita. Nem toda ausência se resolve. Muitas vezes, a gente apenas convive.

Visualmente, o filme é belíssimo, mas não no sentido de cartão-postal. É bonito na textura, na luz natural, na sensação tátil do ambiente. A fotografia e o ritmo ajudam a criar essa experiência quase física, como se o espectador respirasse aquele ar junto com os personagens.

Minha conclusão: vale? Vale. Mas vai sabendo onde você está entrando

Se você procura um filme acelerado, cheio de reviravoltas e catarse fácil, Hamnet não é esse caminho. Agora, se você gosta de cinema que constrói emoção no detalhe, que respeita o tempo da dor e que permanece com você depois da sessão, então vá.

Eu entrei por causa do Oscar 2026. Saí pensando menos em prêmios e mais em uma pergunta que não me largou:
o que a gente faz com uma ausência quando ela passa a fazer parte da nossa vida?

Hamnet não responde isso com discurso. Ele responde com imagem, tempo e silêncio.
E talvez seja exatamente por isso que ele me marcou tanto.

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