Mulheres nos games: os desafios para entrar e crescer na indústria brasileira

Da modelagem 3D ao desenvolvimento independente, profissionais relatam barreiras para conquistar oportunidades, reconhecimento e espaço no mercado de jogos
A indústria de games reúne profissionais de diferentes áreas, da programação e modelagem 3D à produção, comunicação, educação e empreendedorismo. Para mulheres que desejam construir uma carreira no setor, porém, o caminho pode envolver desafios que vão além do domínio técnico, como encontrar a primeira oportunidade, conquistar reconhecimento profissional e acompanhar as mudanças do mercado.
As trajetórias de Larissa Paes, modeladora 3D especializada em ambientes; Ana Petie, professora de desenvolvimento de jogos, Game Design e ilustração digital; Duda Barros, estudante de Design de Games e programadora; e Dhara Luna, profissional de comunicação, produção e desenvolvimento independente, mostram diferentes formas de entrar na indústria brasileira.
Embora tenham experiências distintas, as quatro destacam a importância da formação, da participação em comunidades e do contato com profissionais mais experientes. Também relatam obstáculos relacionados às oportunidades de entrada e à presença feminina em ambientes historicamente dominados por homens.
As dificuldades para entrar na indústria de games
Para Larissa Paes, o interesse pelos jogos começou na infância, quando pesquisava como poderia criar seus próprios games. A descoberta de uma faculdade voltada à área a levou a sair de Mato Grosso e se mudar para a Bahia para estudar desenvolvimento de jogos. Foi durante a formação que ela encontrou no 3D o caminho para sua carreira.
O primeiro contato profissional veio por meio de um estágio oferecido pela própria faculdade. A conquista da vaga, no entanto, exigiu superar a falta de experiência e aprender a construir um portfólio direcionado à indústria.
A dificuldade de encontrar oportunidades também aparece na trajetória de Duda Barros. Seu contato com a programação começou durante o ensino médio, em um curso técnico. Posteriormente, ela decidiu se aproximar da área criativa e estudar Game Design.
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Sua primeira experiência em um projeto de desenvolvimento surgiu por meio de uma rede de amigos, que a conectou a uma pessoa interessada em iniciar um estúdio independente. Embora a atividade não fosse remunerada nem formalizada, foi seu primeiro contato com um projeto externo à faculdade.
A experiência também evidenciou a dificuldade de localizar oportunidades para iniciantes. Duda buscava vagas em sites e por meio de indicações de professores, mas acabou encontrando sua primeira experiência por um contato inesperado.
O problema, segundo ela, não está apenas em encontrar vagas, mas também nos requisitos exigidos nos processos seletivos. A exigência de anos de experiência e listas extensas de tecnologias pode dificultar o acesso de quem está tentando começar.
O desafio de conquistar reconhecimento profissional
Além das barreiras de entrada, as entrevistadas relatam situações em que precisam lidar com julgamentos relacionados ao gênero ou à maneira como são percebidas profissionalmente.
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Larissa afirma que o networking, importante para construir contatos e encontrar oportunidades, também trouxe experiências desconfortáveis. “Acredito que a maior dificuldade que enfrentei foi no networking. Infelizmente, ainda existem pessoas que confundem interesse profissional com interesse amoroso.”
Segundo ela, já houve contatos pelo LinkedIn com segundas intenções e situações presenciais em que conversas estritamente profissionais ultrapassaram esse limite. Por isso, além de apresentar seu trabalho, precisa estar atenta para manter as interações no campo profissional.
A situação exige atenção adicional para manter as interações no campo profissional, mesmo quando o objetivo é simplesmente apresentar o próprio trabalho e construir relações na área.

Duda Barros relata uma experiência diferente, ligada à sua aparência jovem e à personalidade alegre. Em algumas situações na faculdade e na busca por empregos, ela sente que precisa se esforçar para ser levada a sério. “Sim. Meu rosto é bem jovem e tenho uma personalidade alegre, então sinto que em certas situações na faculdade ou na busca de empregos preciso me esforçar para ser levada a sério e não acharem que sou “fofa” ou “ingênua”.“
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Para Dhara Luna, essa necessidade de demonstrar competência também está relacionada à presença histórica dos homens na indústria. “Estamos constantemente precisando provar que somos capazes, que entendemos do assunto e que merecemos ocupar os espaços em que estamos.“
A profissional fez uma transição de carreira para os games e avalia que essa cobrança não se restringe ao setor. No entanto, a predominância masculina torna a questão especialmente visível na indústria de jogos.
Já Ana Petie apresenta uma perspectiva ligada à educação. Professora de desenvolvimento de jogos, Game Design e ilustração digital, ela chegou à área por meio de processos seletivos de hubs e projetos da Prefeitura de São Paulo. Sua experiência em projetos sociais e pedagógicos contribuiu para sua atuação.
Embora não tenha enfrentado os mesmos desconfortos nos projetos sociais em que trabalha, Ana identifica dificuldades nos ambientes de formação em jogos e tecnologia. “Quem trabalha com jogos e tecnologias precisa estar sempre estudando e é ai que mora o meu maior desafio, as escolas de jogos disponíveis são dominadas por homens e são nesses ambientes que temos situações de provação e constrangimentos diversos.”
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Apesar de não ter enfrentado os mesmos desconfortos nos projetos sociais em que trabalha, Ana observa dificuldades em ambientes de formação ligados aos jogos e à tecnologia, onde identifica situações de constrangimento.
Da comunicação ao desenvolvimento de jogos
A trajetória de Dhara Luna mostra que a entrada na indústria não precisa acontecer por uma formação exclusivamente voltada ao desenvolvimento de games.
Formada em Cinema e Audiovisual desde 2015, ela trabalhou com produção audiovisual, design gráfico, marketing, criação de conteúdo para redes sociais e projetos culturais. Também participou da criação e gestão de uma casa de cultura e teve um podcast sobre RPG.
Em 2021, decidiu explorar novos caminhos profissionais e começou a estudar desenvolvimento de jogos. Fez cursos, acompanhou transmissões, participou de comunidades e se conectou a profissionais pelo LinkedIn, especialmente outras mulheres.
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As experiências anteriores se mostraram úteis para sua atuação no setor, principalmente nas áreas de produção, comunicação, marketing e gestão de comunidades. Sua primeira oportunidade profissional na indústria veio por indicação para a Hype Joe Games. Depois, também trabalhou na Indie Hero.

Dhara criou a CTRL ALT, comunidade de desenvolvedores de jogos independentes que, segundo ela, reúne mais de seis mil membros e promove game jams, eventos, mentorias e outras iniciativas de apoio profissional.
Ela também atua como mentora em projetos como Women Game Jam, Mentorias Games Brasil e Playbor. No início de 2026, fundou a Saturno Software com seu companheiro, ampliando sua atuação para o desenvolvimento de jogos e softwares.
O empreendedorismo, porém, trouxe desafios próprios. Além do trabalho criativo, é necessário administrar recursos, organizar equipes e compreender como viabilizar e divulgar os projetos.
Dhara ressalta que desenvolver um jogo exige mais do que uma boa ideia: envolve planejamento, tempo, dinheiro, equipe e conhecimento sobre o mercado. Para quem está começando, compreender o funcionamento da indústria pode ser tão importante quanto aprender as ferramentas de desenvolvimento.
Comunidades e mentorias ajudam a abrir caminhos
A participação em comunidades, eventos e mentorias aparece nas quatro trajetórias como uma maneira de ampliar contatos, receber avaliações e conhecer oportunidades.
Para Larissa, os feedbacks de profissionais mais experientes foram importantes para identificar pontos de melhoria no portfólio. Ela também participa de mentorias gratuitas na Mentorias Games Brasil e destaca o contato com comunidades e eventos da área.
Duda encontrou oportunidades de aprendizado ao conversar com palestrantes depois de apresentações. Esses contatos permitiram conhecer comunidades de desenvolvimento, descobrir eventos menores e apresentar projetos para receber avaliações profissionais.
Ana destaca a importância de registrar conquistas e compartilhar experiências para fortalecer sua presença no setor. Ela também ressalta o papel das conexões entre profissionais: “E sem dúvidas, a rede de mulheres nos jogos estão sempre ajudando umas as outras com diversos tipos de oportunidades.”

Para quem deseja entrar na área, Ana recomenda ainda buscar experiências pedagógicas e em projetos sociais, além da formação em desenvolvimento de jogos.
A participação em game jams, encontros em que equipes desenvolvem jogos em um período limitado, é outra recomendação recorrente. Essas atividades permitem experimentar funções, colaborar com profissionais de diferentes áreas e conhecer pessoas que podem contribuir para projetos futuros.
No caso de Dhara, o envolvimento com comunidades também resultou em novos projetos profissionais. A atuação à frente da CTRL ALT contribuiu para que ela fosse convidada pela Critical Hit Books a escrever um livro sobre game jams, que fará parte de uma coleção brasileira dedicada ao desenvolvimento de jogos.
O que as profissionais recomendam para quem está começando
As entrevistadas defendem que mulheres interessadas em trabalhar com games busquem oportunidades práticas, desenvolvam projetos e não esperem dominar todas as habilidades antes de dar os primeiros passos.
Larissa recomenda investir em um portfólio direcionado à indústria, buscar feedbacks e participar de grupos de mulheres na tecnologia. “Foque no seu portfólio mas sempre pense nele para um jogo, veja como outros artistas fazem e se mantenha preparada: Quando a sorte encontra o preparo não tem pra ninguém!”
Duda incentiva quem está começando a mostrar o próprio trabalho e a compartilhar ideias, mesmo que os projetos ainda sejam pequenos. Para ela, a disposição para aprender também pode fazer diferença na busca por oportunidades.
Dhara, por sua vez, recomenda explorar diferentes áreas da indústria, participar de game jams, frequentar eventos e construir uma rede de apoio. Sua trajetória demonstra que experiências adquiridas em outras áreas podem ser aproveitadas em funções ligadas aos jogos.
As histórias de Larissa, Ana, Duda e Dhara mostram que não existe um único caminho para construir uma carreira na indústria brasileira de games. Formação, experiência prática, transição profissional e participação em comunidades podem abrir portas, mas o acesso a oportunidades, o reconhecimento e a existência de ambientes profissionais respeitosos continuam sendo fatores importantes para que mulheres consigam permanecer e crescer no setor.
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