Marco Legal dos Games: estúdios brasileiros podem ganhar novas oportunidades de financiamento

Marco Legal dos Games: estúdios brasileiros podem ganhar novas oportunidades de financiamento
Foto: Felipe Vasconcelos

Regulamentação prevê mudanças no acesso ao crédito, apoio a jogos independentes e uma plataforma para divulgar produções nacionais. Mas nem todas as medidas já estão disponíveis

Criar um jogo exige muito mais do que uma boa ideia. Para estúdios independentes, conseguir dinheiro para contratar profissionais, desenvolver o projeto e lançar o título no mercado pode ser um dos maiores desafios. É nesse cenário que entra a regulamentação do Marco Legal dos Games, que abre caminho para novas iniciativas de apoio à indústria brasileira.

Publicado em outubro de 2026, o Decreto nº 13.138 estabelece medidas para aproximar os jogos eletrônicos das políticas públicas de cultura, tecnologia e inovação. Entre as novidades estão mudanças previstas nas condições de crédito, recursos anunciados para jogos independentes e a criação de uma plataforma para dar visibilidade às produções nacionais.

A questão agora é entender quanto disso pode chegar, de fato, aos estúdios que desenvolvem jogos no Brasil.

Crédito mais acessível para desenvolver jogos

Uma das mudanças anunciadas envolve o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que inclui os jogos eletrônicos entre as atividades contempladas por suas linhas de crédito.

A proposta prevê reduzir o valor mínimo dos empréstimos de R$ 500 mil para R$ 150 mil e diminuir os juros de TR mais 2% para TR mais 0,5% ao ano.

Na prática, a redução pode tornar o financiamento mais compatível com projetos menores. Para um estúdio independente, conseguir recursos pode fazer diferença na contratação de artistas e programadores, na conclusão de um jogo ou até na preparação para o lançamento.

Mas existe um detalhe importante: as novas condições ainda dependem dos procedimentos de implementação e das regras de acesso. Portanto, o anúncio não significa que qualquer desenvolvedor já possa solicitar o crédito nessas condições.

Jogos independentes também estão na mira

O pacote anunciado pelo governo prevê duas iniciativas para 2027, com estimativa de captação de R$ 50 milhões cada. Uma será voltada à infraestrutura; a outra, à produção e comercialização de jogos independentes.

Também foi anunciada uma chamada pública de R$ 200 milhões da Finep para startups, que ainda depende dos instrumentos necessários para sua execução.

Os números chamam a atenção, mas o impacto dessas medidas dependerá de como os recursos serão distribuídos e de quais empresas poderão participar.

Para os pequenos estúdios, algumas perguntas continuam sem resposta: será possível financiar equipes em início de carreira? Quais despesas poderão entrar nos projetos? E como empresas de diferentes regiões do país poderão concorrer?

Essas definições serão fundamentais para entender se o pacote conseguirá alcançar desenvolvedores que hoje encontram dificuldades para financiar seus próprios jogos.

Game Brasil quer dar mais visibilidade aos jogos nacionais

Outra novidade é o Game Brasil, plataforma pública e gratuita criada para divulgar produções brasileiras.

A iniciativa pode ajudar jogadores a descobrir títulos nacionais e ampliar a exposição de estúdios que disputam espaço em um mercado dominado por grandes lançamentos internacionais.

A plataforma, porém, não substitui o financiamento nem garante que um jogo terá público ou vendas. Sua contribuição será ampliar a divulgação das produções brasileiras, conforme os recursos e as funcionalidades que forem disponibilizados.

O decreto também prevê espaços de formação e desenvolvimento, além de iniciativas de qualificação profissional. Entre as medidas anunciadas estão 230 vagas em cursos de graduação distribuídos por cinco universidades federais, uma em cada região do país.

O Brasil já tem uma indústria de games em crescimento

O país não parte do zero. Dados reunidos pelo Ministério da Cultura indicam que o Brasil tinha 123,3 milhões de jogadores em 2025 e movimentava US$ 2,7 bilhões, ocupando a nona posição mundial em receita.

O número de desenvolvedoras brasileiras também cresceu: passou de 133 empresas em 2014 para 1.042 em 2023. Entre 2020 e 2022, foram lançados 2.624 jogos, e 92% das empresas pesquisadas desenvolviam propriedades intelectuais próprias.

Os números mostram uma indústria com espaço para crescer, mas que ainda enfrenta dificuldades para transformar projetos em negócios sustentáveis.

Segundo dados de pesquisa da Abragames e da ApexBrasil citados pelo Ministério da Cultura, 60% das 297 desenvolvedoras consultadas nunca haviam utilizado financiamento público.

Esse dado ajuda a explicar por que o acesso aos novos mecanismos será tão importante quanto o anúncio dos recursos. Não basta criar linhas de apoio: os estúdios precisam conseguir entender as regras, preparar projetos e competir pelas oportunidades.

O que acontece agora?

A regulamentação estabelece um novo caminho para as políticas públicas voltadas aos games, mas parte das medidas ainda depende de regras complementares, editais e procedimentos de execução.

Para os desenvolvedores, o próximo passo é acompanhar a publicação dessas regras e verificar quais iniciativas estarão abertas, quem poderá participar e em quais condições.

O advogado Marcelo Mattoso, sócio do Barcellos Tucunduva Advogados na área de Games e e-Sports, avalia que o reconhecimento dos jogos como parte da economia criativa pode ampliar as oportunidades de financiamento e desenvolvimento da indústria nacional. Ele ressalta, porém, que a regulamentação é o começo do processo, não sua conclusão.

O Marco Legal dos Games cria novas possibilidades para o setor brasileiro. O que ainda precisa ser demonstrado é se elas vão chegar aos estúdios que mais precisam de apoio para transformar suas ideias em jogos lançados no mercado.

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