Marcos Cavallaria une moda, cinema e física quântica em obras que desafiam a percepção

Fotógrafo, diretor e artista visual fala sobre sua carreira, a influência da física quântica em suas obras e os desafios de transformar o invisível em arte
Muito antes dos vídeos dominarem as redes sociais e se tornarem parte essencial das campanhas de moda e publicidade, Marcos Cavallaria já apostava em uma linguagem que misturava cinema, fotografia e narrativa visual. Hoje reconhecido como um dos pioneiros dos fashion films no Brasil, o artista construiu uma carreira que atravessa moda, audiovisual, tecnologia e artes visuais, sempre guiado pela busca por novas formas de expressão.
A aposta em vídeos de moda surgiu em um período em que o mercado ainda não compreendia totalmente o potencial desse formato. Segundo Cavallaria, o desafio era apresentar uma visão de futuro para marcas que ainda associavam produções audiovisuais apenas à televisão.

“Eu costumava dizer que tinha uma Ferrari nas mãos, mas ainda não existia pista para correr”, relembra. “Sabia que a tecnologia e a internet evoluiriam até tornar o vídeo a principal linguagem de comunicação.”
Essa convicção o levou a investir durante anos em projetos próprios, muitas vezes sem retorno financeiro imediato, até que a evolução das plataformas digitais transformou o vídeo em uma das principais ferramentas de comunicação das marcas.
Arte como ponto de partida
A relação de Cavallaria com a arte começou muito antes das câmeras. Influenciado pela mãe, apaixonada pelo universo artístico, ele passou pela pintura, desenho, histórias em quadrinhos, música e fotografia antes de encontrar no cinema uma síntese para suas diferentes paixões.
Ao longo dos anos, essa busca evoluiu para algo ainda mais amplo. O interesse por tecnologia, percepção e física quântica passou a influenciar diretamente sua produção artística.
“Cinema, fotografia, arte e tecnologia não são áreas separadas para mim. São linguagens complementares que se encontram para construir experiências capazes de unir estética, emoção e reflexão”, afirma.
O encontro entre arte e física quântica
Uma das características mais marcantes do trabalho de Cavallaria é a forma como conceitos ligados à física quântica, percepção e consciência aparecem em suas obras.
Segundo o artista, essa conexão surgiu naturalmente a partir de questionamentos que o acompanham desde a infância. Em vez de utilizar a ciência como explicação, ele busca transformá-la em experiência sensorial.
“A luz se tornou um elemento central porque conecta naturalmente a fotografia, o cinema e muitos dos conceitos científicos que me inspiram. Meu trabalho busca justamente esse ponto de encontro entre arte, ciência e experiência humana.”
Essa abordagem deu origem a projetos como Stardust e TimeFrame, séries que exploram a relação entre realidade, tempo e percepção por meio de efeitos ópticos desenvolvidos com apoio tecnológico da RED Digital Cinema.
Burning Man e a arte como experiência coletiva
A força dessas obras ganhou projeção internacional quando Cavallaria levou seus projetos ao Burning Man, um dos maiores festivais de arte do mundo.
Para ele, o evento representou um ambiente ideal para experimentar novas formas de interação entre obra e público.
“No Burning Man, a arte deixa de ser apenas observada e passa a ser vivida. O público participa, interfere e transforma a experiência.”
A participação marcou um momento importante de sua carreira ao apresentar trabalhos que unem fotografia, luz e tecnologia diante de uma audiência internacional aberta à experimentação artística.

Entre celebridades e autenticidade
Ao longo da carreira, Cavallaria dirigiu e fotografou nomes como Gisele Bündchen, Anitta, Zac Efron, Matthew McConaughey, Alessandra Ambrósio e Kendall Jenner.
Apesar das diferentes trajetórias e personalidades, ele acredita que existe um elemento em comum entre grandes artistas diante das câmeras.
“A autenticidade. Quando existe presença verdadeira, ela fica impressa no fotograma e a obra ganha vida.”
Para o diretor, é justamente essa capacidade de transmitir algo genuíno que transforma uma imagem em uma experiência memorável.
Tecnologia, inteligência artificial e o futuro da criação
Reconhecido internacionalmente por seu trabalho com câmeras RED, se tornando o único brasileiro entre os embaixadores globais da marca, Cavallaria vê a tecnologia como uma ferramenta de expansão criativa.
Ele acredita que o mesmo vale para a inteligência artificial, tema cada vez mais presente na indústria audiovisual.
“A tecnologia pode gerar imagens, mas é o olhar do artista que dá significado, intenção e emoção ao que está sendo criado. A ferramenta muda. A essência da arte permanece.”
Para o artista, o futuro da criação está menos ligado à substituição do ser humano e mais à ampliação das possibilidades de expressão.
O desafio de tornar o invisível visível
Atualmente, Cavallaria prepara uma nova participação na Kura Exposição, desta vez com uma instalação de mais de 30 metros de altura.
A obra ocupará o antigo vão de elevador de um edifício histórico e utilizará luz, espelhos, lasers e elementos de optical art para criar uma experiência imersiva inspirada pela relação entre física, espiritualidade e percepção.
Curiosamente, um dos principais elementos da instalação surgiu de forma inesperada: o vento.
“Sem intenção prévia, a natureza tornou-se coautora da instalação. O vento virou meu arte-finalista. É ele quem dá direção, velocidade e contraste aos meus pincéis de luz suspensos no ar.”
Mesmo após décadas de carreira e projetos internacionais, Cavallaria afirma que continua movido pela mesma inquietação artística.
“Trazer o invisível para o visível sempre será minha premissa. O que me desafia é criar obras capazes de provocar reflexão, despertar sensações e gerar conexões genuínas com o público.”
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