A apropriação cultural como atalho para o sucesso em A Impostora: Yellowface

A apropriação cultural como atalho para o sucesso em A Impostora: Yellowface

O livro A Impostora: Yellowface traz uma crítica ácida ao mercado editorial, abordando temas como racismo, antiética e plágio.

A Impostora: Yellowface, de R. F. Kuang, é um livro que causa incômodo — mas um incômodo necessário. A obra traz uma crítica ácida ao mercado editorial, abordando temas como apropriação cultural, racismo, plágio e a influência das redes sociais no sucesso literário.

Com humor ácido e ironia afiada, Kuang escancara até onde algumas pessoas são capazes de ir para alcançar o topo, expondo dinâmicas que, no fundo, atravessam diversas profissões, mas ganham contornos ainda mais perversos no universo literário.

Yellowface e a crítica ao racismo no mercado editorial

Em Yellowface, R. F. Kuang desmonta a imagem romantizada do mercado editorial e revela um sistema marcado por desigualdades raciais, interesses financeiros e uma lógica que frequentemente privilegia a polêmica em detrimento da ética.

A autora não poupa o leitor: o racismo estrutural, a apropriação cultural e o oportunismo aparecem sem disfarces, tornando a leitura desconfortável — e exatamente por isso, potente.

June Hayward e Athena Liu: amizade, inveja e desigualdade racial

A narrativa acompanha June Hayward e Athena Liu, escritoras que se formaram em Yale e publicaram seus romances de estreia na mesma época.
Enquanto Athena, uma autora sino-americana, alcança reconhecimento imediato e sucesso estrondoso, June permanece à margem, consumida por uma inveja silenciosa e corrosiva.

O contraste entre as duas evidencia como o mercado reage de forma distinta a autores racializados, mesmo quando o talento está presente em ambos os lados.

O roubo do manuscrito e o nascimento de uma farsa literária

“A noite em que presencio a morte de Athena Liu é a mesma em que comemoramos seu contrato de direitos audiovisuais com a Netflix.”

A frase de abertura já define o tom da obra. Após a morte repentina de Athena, June deixa o apartamento da amiga levando consigo um manuscrito inacabado: um romance histórico sobre trabalhadores chineses na Primeira Guerra Mundial.

Athena era reservada e não compartilhava seus projetos antes de finalizá-los. Ninguém sabia da existência do texto, o terreno perfeito para o que viria a seguir.

Plágio literário, identidade racial e a construção de uma autora falsa

Com o manuscrito em mãos, June decide reescrevê-lo e publicá-lo como se fosse sua própria obra. Para sustentar a farsa, adota um pseudônimo e constrói uma identidade racialmente ambígua.

O livro passa a ser assinado como Song, um nome claramente escolhido para sugerir ascendência asiática — algo que June insiste em negar como intencional. A manipulação da identidade se torna parte central do golpe.

Do anonimato ao best-seller: apropriação cultural e sucesso literário

Rebatizado como O Último Front, o livro é lançado como uma obra-prima e rapidamente se transforma em best-seller. June alcança o estrelato literário que sempre desejou e experimenta, finalmente, o prestígio que Athena despertava nas pessoas.

Mas o sucesso vem acompanhado de acusações de plágio e apropriação cultural, tanto nas redes sociais quanto nos bastidores do mercado editorial, levando June a uma espiral de paranoia, autojustificativas e colapsos éticos.

Uma narradora detestável e propositalmente desconfortável

June é detestável — e Kuang faz isso de forma absolutamente consciente. Como narradora em primeira pessoa, ela se dirige constantemente ao leitor para se justificar, enquanto dispara comentários preconceituosos e absurdos.

Manipuladora, invejosa e maldosa, June tenta convencer que sua falta de sucesso justificaria seu racismo, sua inveja e sua completa ausência de ética. O desconforto vem justamente dessa tentativa de sedução moral.

Traumas, abuso e silêncios no passado das personagens

R. F. Kuang aprofunda o passado das personagens ao abordar o abuso sexual sofrido por June e as marcas deixadas por essa experiência. Athena, mesmo ciente do ocorrido, tem atitudes ambíguas que também são colocadas em xeque.

Em certos momentos, a narrativa provoca o leitor a compreender  e até relativizar — comportamentos questionáveis, o que torna a leitura ainda mais perturbadora.

O lado obscuro do mercado literário e o poder das redes sociais

Outro ponto forte de A Impostora é a exposição do lado mais sujo do mercado literário: favorecimento de determinados autores, arrogância, lucro acima de qualquer valor moral e a máxima de que não importa se o autor é uma boa pessoa — desde que venda.

Kuang também escancara o papel das redes sociais, que ditam quem merece aplauso ou cancelamento, criando ciclos de idolatria e destruição em ritmo acelerado.

Um final perturbador que flerta com a metalinguagem

O desfecho é angustiante e inteligente, flertando com a metalinguagem e fechando a obra de forma provocadora. Kuang deixa o leitor inquieto, refletindo não apenas sobre a história, mas sobre o próprio ato de consumir narrativas.

Por que ler A Impostora: Yellowface, de R. F. Kuang

R. F. Kuang se consolida como uma escritora revolucionária e visionária. A Impostora: Yellowface é uma leitura incômoda, necessária e brilhante — uma crítica afiada ao racismo, à apropriação cultural e às engrenagens do sucesso literário.

Leiam. Vale muito a pena.

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