Crítica: Pecadores é potente, mas falha ao abraçar o terror

Pecadores é aquele tipo de filme que dá vontade de aplaudir no meio e discutir na saída. Ryan Coogler volta ao território autoral com fome de cinema grande, e isso aparece na tela em cada escolha: a câmera não pede desculpa, a música empurra a narrativa e o Mississippi de 1932 vira um palco de desejos, culpa e sobrevivência. Ao mesmo tempo, o longa parece travar uma briga interna entre duas obras: uma crônica cultural e histórica sobre o blues (magnética) e um filme de vampiro (irregular). O resultado é sexy, vibrante e ambicioso mas também inconsistente.
Talvez por isso ele tenha virado um fenômeno de temporada: Pecadores quebrou o recorde e chegou a 16 indicações ao Oscar 2026, superando o antigo teto de 14. Só que a pergunta que fica é mais interessante do que a contagem: o filme mereceu esse status por ser “o melhor Coogler” ou por ser “o mais Coogler”?
Pecadores é um filme de blues antes de ser um filme de vampiro

Coogler acerta quando decide respirar. Ele abre espaço para o cotidiano, para a cidade e para o peso histórico que ronda cada esquina. A primeira parte constrói personagens com textura: o jovem Sammie vive o conflito entre fé e desejo; os gêmeos Smoke e Stack carregam passado, pragmatismo e impulsos opostos; e o clube de blues nasce como promessa de refúgio num país que nunca foi gentil com corpos negros.
Aqui, o filme vibra porque não “explica” o blues ele encena o blues. A música vira linguagem de resistência e também de tentação, e o longa encontra um pulso raro ao conectar arte, ancestralidade e opressão sem cair no discurso de manual. Além disso, a mise-en-scène faz a plateia sentir que aquele espaço de festa é, ao mesmo tempo, liberdade e armadilha.
Michael B. Jordan carrega Pecadores no ombro e não é só pelo papel duplo

Michael B. Jordan entrega um trabalho de risco: interpretar gêmeos é sempre um teste de truques, e Coogler evita o caminho fácil. Smoke e Stack não se distinguem só por figurino ou “jeito” de andar; eles se diferenciam pela forma como lidam com o mundo. Um calcula, o outro queima. E, ainda assim, Jordan coloca vulnerabilidade nos dois como se a armadura fosse só mais uma camada de defesa.
O elenco de apoio também ajuda a manter o filme “em carne viva”. Wunmi Mosaku dá densidade ao que poderia ser só função narrativa, enquanto Delroy Lindo injeta humanidade e humor amargo, lembrando que sobrevivência também inclui o ridículo, a ressaca e a contradição.

O problema: o terror de Pecadores nem sempre acompanha o tamanho das ideias
E aí vem o ponto em que Pecadores escorrega: quando o longa entra de vez no horror, ele perde parte da originalidade que construiu antes. O vampiro (e as regras clássicas do gênero) funciona como metáfora de apropriação, invasão e parasitismo cultural e essa leitura é potente. Só que, na prática, a presença das criaturas muitas vezes parece mais convencional do que o filme “prometeu” ser.

A sensação é de encaixe: o longa quer ser um drama histórico sobre blues, racismo e misticismo, mas também quer cumprir a embalagem de blockbuster gótico. Em alguns trechos, dá certo. Em outros, parece que Coogler troca um filme único por um clímax mais genérico, como se o terceiro ato buscasse “fechar com impacto” em vez de concluir com a mesma inteligência do início.
Ou seja: o terror não é o pecado. O pecado é quando o terror vira atalho.
Oscar 2026: as 16 indicações de Pecadores (lista)
O recorde de 16 indicações ajuda a explicar o tamanho do fenômeno e a lista mostra como a Academia abraçou o filme tanto no artístico quanto no técnico.
Pecadores concorre em:
- Atriz coadjuvante – Wunmi Mosaku;
- Maquiagem e penteados – Ken Diaz, Mike Fontaine, Shunika Terry;
- Trilha sonora – Ludwig Göransson;
- Roteiro original – Ryan Coogler;
- Ator coadjuvante – Delroy Lindo;
- Elenco – Francine Maisler;
- Figurino – Ruth E. Carter;
- Música original – “I Lied To You”, de Raphael Saadiq e Ludwig Göransson;
- Direção de arte – Hannah Beachler e Monique Champagne;
- Montagem – Michael P. Shawver;
- Mixagem de som – Chris Welcker, Benjamin A. Burtt, Felipe Pacheco, Brandon Proctor e Steve Boeddeker;
- Efeitos visuais – Michael Ralla, Espen Nordahl, Guido Wolter e Donnie Dean;
- Fotografia – Autumn Durald Arkapaw;
- Melhor ator – Michael B. Jordan;
- Direção – Ryan Coogler;
- Melhor filme – Zinzi Coogler, Sev Ohanian, Ryan Coogler (produtores).
No fim, Pecadores é grande porque arrisca. Ele transforma música em memória coletiva, e transforma entretenimento em comentário social sem perder o pulso popular. Ainda assim, ele não é perfeito: quando tenta ser dois filmes ao mesmo tempo, ele entrega um primeiro ato brilhante e um final que nem sempre honra a complexidade do que veio antes. Mesmo assim e talvez justamente por isso é o tipo de obra que fica martelando na cabeça. Como um bom blues.
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