Melhores Dias: Luana Rocha transforma cultura urbana de São Paulo em documentário

Melhores Dias: Luana Rocha transforma cultura urbana de São Paulo em documentário
Foto: divulgação

Em seu primeiro longa-metragem como diretora, cineasta reúne diferentes gerações do rap, trap e funk em um retrato coletivo que tem o Festival Melhor Dia como ponto de partida

O encontro entre diferentes gerações da música urbana brasileira conduz Melhores Dias, documentário dirigido por Luana Rocha que apresenta um retrato da cultura urbana de São Paulo a partir do Festival Melhor Dia. Com 89 minutos de duração, o longa acompanha os preparativos para o evento idealizado pelo produtor e hair stylist Marcos Baroni e reúne artistas como Edi Rock, Matuê, MC Hariel, MC Tha, Jup do Bairro e Nanda Tsunami.

Selecionado para a Competição Novos Diretores da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o filme marca a estreia de Luana na direção de um longa-metragem. Documentarista, roteirista e pesquisadora, ela construiu uma narrativa que vai além dos palcos e dos bastidores do festival para observar as conexões entre artistas, movimentos culturais e diferentes momentos da história do hip hop na capital paulista.

A proposta surgiu da possibilidade de usar os artistas presentes no evento para construir um retrato da cena contemporânea, sem deixar de olhar para suas origens e transformações. A diretora também buscou apresentar uma perspectiva de esperança, considerando as mudanças conquistadas pelo movimento cultural ao longo do tempo.

“A ideia era apresentar uma perspectiva de que, embora o movimento precise lutar pela sobrevivência diariamente, vivemos dias melhores em comparação ao passado”, explica Luana.

São Paulo como parte da narrativa

Em Melhores Dias, a cidade não aparece apenas como cenário. São Paulo funciona como uma camada narrativa importante, especialmente porque muitos dos artistas que participam do festival construíram suas carreiras na capital. A diretora também se interessou pela dinâmica cotidiana da metrópole e pela maneira como diferentes expressões culturais ocupam seus espaços.

O festival, nesse contexto, é apresentado como uma das peças de um movimento mais amplo. A narrativa reúne músicos, poetas de slam, dançarinos de break e outras expressões ligadas ao hip hop, conectando trajetórias individuais em uma experiência coletiva.

Marcos Baroni ocupa um papel importante nessa construção. Idealizador do evento, ele representa a conexão entre diferentes artistas e iniciativas culturais. Sua trajetória, que começa em um salão de beleza na Zona Sul de São Paulo, também integra o retrato de pessoas que construíram seus próprios caminhos dentro da cultura urbana.

A escolha dos personagens orientou a estrutura do documentário. Luana pensou na função narrativa de cada participante, buscando estabelecer conexões entre diferentes gerações e experiências. Edi Rock, por exemplo, representa o elo entre passado e presente, enquanto Baroni e Matuê aparecem ligados à criação do festival.

O longa também abre espaço para artistas que não estavam na programação do evento. Uma das escolhas da diretora foi utilizar o Theatro Municipal como um palco paralelo, ampliando as vozes presentes no filme e a representação da cultura urbana.

O documentário entre realidade e criação

A experiência de Luana com o jornalismo e a pesquisa documental também influencia sua maneira de pensar o cinema. Formada em Jornalismo, ela trabalhou como repórter por mais de dez anos, mas enxerga o documentário como um gênero que permite explorar diferentes possibilidades narrativas.

Para a diretora, a linguagem documental não precisa ficar restrita a uma abordagem exclusivamente jornalística. Ela defende a possibilidade de incorporar recursos de construção narrativa associados à ficção, mantendo a realidade como matéria-prima. “Eu, particularmente, enxergo o fazer documental como numa narrativa de ficção, mas com a realidade. Parece dicotômico, mas é possível“, afirma.

Essa perspectiva também se relaciona à forma como o filme organiza suas histórias e personagens. Em vez de apresentar apenas uma sequência de registros do festival, a produção articula diferentes trajetórias para construir um retrato da cultura urbana paulistana.

A circulação de documentários brasileiros, porém, ainda enfrenta obstáculos. Luana aponta dificuldades de distribuição no país, apesar do volume de produções realizadas no gênero. Na avaliação dela, uma regulação mais específica para a exibição de filmes brasileiros no circuito comercial poderia contribuir para ampliar esse espaço.

Primeiro longa como diretora

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Foto: divulgação

Melhores Dias representa uma nova etapa na trajetória profissional de Luana Rocha. Formada em Jornalismo, ela também estudou Cine Documental na Escola Internacional de Cinema e Televisão (EICTV), em Cuba, e atuou no desenvolvimento de produções para Netflix, HBO e Globoplay.

Antes da estreia na direção de um longa, participou de projetos documentais como Chico Rei Entre Nós, vencedor do Prêmio do Público de Melhor Documentário Brasileiro e de Menção Honrosa do Júri na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e Pau D’Arco, vencedor da Mostra Ecofalante de Cinema em 2025. Também integrou a equipe de roteiro da série documental O Ninho: futebol e tragédia, da Netflix.

Ao receber o convite da produtora Abrolhos para dirigir o filme, Luana iniciou um processo de pesquisa sobre o tema e buscou referências audiovisuais que apresentassem diferentes formas de contar e filmar. A construção dos personagens e de seus papéis na narrativa foi parte central desse trabalho.

A diretora destaca que teve liberdade para desenvolver suas escolhas criativas, algo que considera fundamental para o resultado. Entre as referências utilizadas está o curta-metragem As Estátuas Também Morrem, de Chris Marker, que inspirou a construção de uma das sequências no Theatro Municipal.

A experiência também ajudou a definir o caminho que pretende seguir no cinema. Luana se interessa por uma combinação entre alcance comercial e construção artística, buscando dialogar com diferentes públicos sem abrir mão de uma linguagem autoral.

Uma história sobre união e movimento

Além de apresentar artistas e diferentes expressões da cultura urbana, Melhores Dias busca destacar a força das iniciativas coletivas. O documentário acompanha trajetórias que se cruzam em torno do festival e evidencia como a música, a poesia e os encontros podem criar espaços de expressão e articulação.

A presença de artistas como MC Hariel, Matuê, Edi Rock, MC Tha, Jup do Bairro e Nanda Tsunami amplia esse retrato, que também inclui a atuação de mulheres no cenário urbano contemporâneo e as experiências de artistas ligados à poesia e ao slam.

Para quem não acompanha diretamente o rap, o trap ou o funk, Luana espera que o filme ajude a reconhecer a importância da união e da organização coletiva. “Os Melhores Dias podem chegar quando a gente entender juntos somos muito mais poderosos“, conclui.

Depois da passagem pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o documentário se prepara para alcançar novos públicos, com perspectivas de lançamento comercial e negociações para exibição em plataformas de streaming.

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